ACHEI!
Fazia um tempão que procurava um exemplar decente e a preço justo de A imaginação sociológica (Jorge Zahar Editores), do sociólogo estadunidense Charles Wright Mills (1916-1962). Em matéria de Ciências Sociais, trata-se de uma das cinco obras-primas do pós-Segunda Guerra Mundial. Encontrei o livro perdido, poento e tristonho num sebo da rua Dr. Vila Nova, encostadinho ao SESC Consolação e à livraria Martins Fontes, dobrando a esquina com a Maria Antonia do TUSP, dos mackenzistas e dos barzinhos.
Lançado em 1959 pela Oxford University Press, The Sociological Imagination é despeito e irreverência da primeira a última linha. O afiado conjunto de ensaios e conferências de Wright Mills confrontavam no calor dos fatos a Grande Teoria, o empirismo abstrato, Talcott Parsons (1902-1979) e seu The Social System (1951) e a fixação por surveys quadradões, prevalentes na tradição sociológica dos EUA.
A edição é de 1975. O presidente/ditador do Brasil era o Gal. Ernesto Geisel e o Coringão amargava a seca de títulos. Os trinta e três anos de folheios e ácaros não destruiram as 247 páginas, nem arrebentaram com a capa mostarda, maionese e ketchup. Antes dele, o único volume que tive em mãos fora o da biblioteca da Escola de Sociologia e Política, cujo estado era lastimável, com marcações à lápis e à caneta, rasuras e o miolo todo esfarelado. Ação corrosiva do tempo e do descaso.
A imaginação sociológica saiu inexplicavelmente de catálogo. Mandei e-mails para o editorial da Jorge Zahar, sem retorno. Haverão pendências jurídicas com os direitos de publicação? O "sim" é a resposta aceitável para o sumiço. Odiado ou amado, Charles Wright Mills é leitura de formação e reflexão crítica. De qualquer forma, o relançamento pela própria JZE de Outsiders: estudos de sociologia do desvio, de Howard S. Becker, reacende a esperança. Quem sabe ele não seja o próximo da fila?
Deu um trabalhão garimpá-lo, viu? Quem navega pelo ótimo site Estante Virtual encontra lá umas quinze referências a A imaginação sociológica, em sebos diversos espalhados pelo Brasil. Fácil, simples, rápido. Será? Quando fui aos locais indicados em São Paulo, o livro constava no cadastro e não se encontrava nas prateleiras. Como já fui atendente de livraria, saquei no ato: esta é a senha de livro reservado. Ou surrupiado. Esquece. Quinze felizardos terão garantida a sua cópia de um líbelo irônico e destemido sobre o fazer sociológico. Graças as minhas persistentes andanças, um deles sou eu!